Jornal O Norte

João Pessoa, Quarta-Feira, 07 de Janeiro de 2009

Editorial


Tragédia humanitária

Ao acabar a Segunda Guerra Mundial, o mundo esperava nunca mais assistir a tragédias humanitárias como a que dizimou a vida de 6 milhões de pessoas entre 1939 e 1945. As esperanças, porém, mostraram-se vãs. Gaza serve de exemplo. Encurralada, a população da faixa de 362km² (1,5 milhão de pessoas) protagoniza o horror que escandaliza as consciências civilizadas dos cinco continentes e mobiliza protestos nas principais cidades da Terra.

O cenário assusta. Homens, mulheres e crianças que se concentram numa das regiões de maior densidade populacional do planeta são as vítimas de uma guerra na qual não são soldados. Submetidos a chuva de mísseis há 11 dias, tiveram o território invadido também por terra. Tanques, armas e os militares mais bem treinados do mundo abrem caminho no terreno em que cada centímetro é disputado por milhares de pessoas. O apagão, aliado ao frio e à falta de água potável, acrescenta desespero ao ambiente digno do inferno de Dante.

Antes dos ataques, Gaza estava estrangulada. Sitiada entre o mar e o muro construído por Israel (que controla entradas e saídas de pessoas e produtos), a estreita faixa depende totalmente de Telavive.

loqueio de 18 meses escasseou alimentos, agasalhos, remédios. O cessar-fogo, que previa o levantamento do cerco, não obteve êxito. Essa a razão, segundo o Hamas, grupo que controla Gaza, de romper a trégua com lançamento de foguetes contra o país vizinho. A resposta desproporcional já fez mais de 500 mortos e 2.500 feridos — boa parte civil.

No vácuo da transição de governo nos Estados Unidos e dos feriados de fim de ano, a União Europeia faz tentativas de obter trégua a fim de abrir espaço para a diplomacia. Representantes do Hamas aceitaram ir ao Egito para negociar uma solução. Até agora as iniciativas foram inúteis. Também inúteis foram as resoluções da ONU, sistematicamente desrespeitadas ao longo de 60 anos. No meio do tiroteio, milhões de inocentes. Eles pagam a conta de outros. De um lado, da divisão palestina. De outro, do primeiro-ministro Ehud Olmert, que quer se refazer do fracasso no Líbano antes de se retirar de cena com as eleições de 10 de fevereiro.

Também de George W. Bush, cujo apoio incondicional a Israel pode prejudicar os planos do sucessor. Barack Obama quer reconstruir as pontes bombardeadas por Bush em oito anos de desastrados mandatos. Planeja refazer as alianças dos Estados Unidos sobretudo com os europeus, cuja cobertura é indispensável na guerra contra o Afeganistão. A condenação mundial a Telavive — fruto da desproporção de forças — deixa Washington mal na fotografia e impõe o imediato cessar-fogo.

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