Jornal O Norte

João Pessoa, Quinta-Feira, 28 de Agosto de 2008

W. J. Solha


Quando o povo está pronto, o mestre aparece

A Arte como Vox Populi e Vox Dei.

Que seria da Bahia sem Jorge Amado, Caetano e Gil, mais Glauber Rocha? E do interior paraibano sem Ariano, Zé Américo, Zé Lins, Vladimir de Carvalho e Linduarte Noronha? Imagine Pernambuco sem Capiba, Manuel Bandeira, Brennand, Gilberto Freire e João Cabral de Melo Neto? Pense em Minas sem Guimarães Rosa, Niemeyer e Aleijadinho; os gaúchos sem o Érico Veríssimo, mais Tabajara Ruas, João Gilberto Noll e Moacyr Scliar; o Amazonas sem o Márcio Souza e Milton Hatoum.

O século V a.C. não seria "de Péricles" se esse grande administrador não houvesse contratado Fídias para construir a Acrópole. Quem se lembraria do Papa Julio II, se ele não tivesse forçado Miguelângelo a pintar o teto e a parede de fundo da Sistina, além de mandá-lo esculpir o "Moisés"? Claro que ninguém teria idéia do que foi o extraordinário esplendor egípcio sob os faraós Akhenaton e seu filho Tutankâmon, se eles não se tivessem cercado de artistas maravilhosos, como Tutmés, que esculpiu a famosa cabeça de Nefertiti.

Pense em Barcelona sem Gaudí. Impossível. Em Delft sem Vermeer. Impossível. Em Amsterdam sem Rembrandt. Impossível. Em Viena sem Mozart mais Klimt, Kokoshka e Egon Schiele, além dos três Johann Strauss. Impossível. Quanto a Nova York, o que seria dela sem a canção "New York, New York", de Fred Ebb & John Kander, nas interpretações famosas de Frank Sinatra e Lisa Minelli? Que seria dela sem William Lamb, que arquitetou o Empire State Building; sem Andreas Feininger, que a fotografou; sem Tom Wolfe, que tão bem a reproduziu em seu romance "Fogueira das Vaidades"; sem Woody Allen, que a glorificou no cinema, com "Manhattan", que abre com outra "cara da cidade", que é a Rhapsody in Blue, de Gershwin?

Não dá para pensar em Dublin sem os contos "Dublinenses", de Joyce, e sua evolução no gigantesco romance "Ulisses". Não dá para pensar no Caribe sem Gabriel García Márquez, como não dá para se cogitar numa Espanha sem Picasso e Lorca, Cervantes, Goya, Velázquez y Segóvia. Peru sem Vargas Llosa? Não dá. E imagine Londres sem Shakespeare e os quadros de Turner, sem a bela caminhada de Mrs. Dalloway pela cidade ( no romance homônimo de Virginia Woolf ), o vulto de Sherlock Holmes - de Conan Doyle - na iminência de sair de Baker Street 221 B, endereço tão fictício quanto o Corrientes tres cuatro ocho, em Buenos Aires! Paupérrima seria Paris sem os Renoir - pai e filho -, sem Debussy, Ravel, Utrillo, Tolouse-Lautrec, Degas, sem Zola, Flaubert, Cocteau, Maupassant, Edith Piaf, Godard, Ives Montand, Claude Lelouch, Resnais.

Daí que sempre que ouço dizer que devemos à Revolução Russa um cinema como o de Eisenstein, uma poesia como a de Maiakóvsky, uma literatura como a de Gorki, pergunto-me se não é o contrário. O mesmo quanto à Revolução Mexicana e as imensas figuras de seu trio de muralistas Siqueiros, Orozco e Rivera. Pense na Guerra da Gália sem o "De Bello Gallico", de César. Pense no que seria a Batalha de San Romano sem os três magníficos afrescos de Paolo Ucello. Pense no que seria a derrota de Napoleão infligida pelo Marechal-de-Campo Mikhail Kutuzov, na Rússia, sem o "Guerra e Paz" de Tolstói e o grandiloqüente "1812", de Tchaikowsky. Pense no que seria de Conselheiro e de Canudos sem o colossal "Os Sertões", de Euclides da Cunha. Não dá, do mesmo modo, para sentir o que foi o período holandês no Brasil sem "O Valeroso Lucideno e o Triunfo da Liberdade", de Frei Manuel Calado do Salvador, mais a "História dos Feitos Praticados por Nassau durante oito anos no Brasil", de Gaspar Barléu, ambos do século XVII, mais as obras dos "brasilianistas" Frans Post e Eckhout.

Dizem que quando o discípulo está pronto, o mestre aparece. Troco "o discípulo" por "o povo", porque Vitalino - filho de uma louceira e hoje com peças no Louvre - não surgiu do nada, mas de Caruaru, assim como Leandro Gomes de Barros é produto de Pombal, o Zé Bezerra da Torre, Políbio Alves do Varadouro, e Noel Rosa mais Cartola e Pixinguinha, assim como Chico Buarque, do Rio. Dizia-se, até pouco tempo, que o período anterior à Renascença Italiana tinha sido a Era das Trevas, mas evidentemente as relumbrantes catedrais góticas - em Paris, Chartres, Colônia e Milão - negam isso, e - assim como o escândalo Augusto dos Anjos na verdade foi manifestação de Baudelaire na Paraíba - é conseqüência de uma cultura que produzia - lá em Flandres - um gênio absoluto da pintura, Van Eyck, já proveniente de outra figura ímpar, o escultor holandês Klaus Sluter.

Tudo ponderado, parece-me que a História deveria ser a História da Arte. Incluindo as religiões, sempre resultado do trabalho de escritores, poetas, grandes oradores e artistas plásticos. Incluindo a filosofia, ou Bergson e Bertrand Russell não seriam prêmios Nobel de literatura. Incluindo a ciência, com a grande ficção que é o Big Bang. Porque a Arte é vox populi. É vox Dei.

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