Jornal O Norte

João Pessoa, Quinta-Feira, 28 de Agosto de 2008

Tarcísio Pereira


A vida por um boné

Um menino, nessas horas, só pensa no seu boné, como se fosse aquela máxima fortuna que não pode perder

Felizmente que a notícia é boa, mas poderia ser outra. Não matei aquele menino, graças a Deus. Mas um simples susto já nos faz refletir sobre essas tragédias de todos os dias.

Lá vinha o meu carro na BR livre, a 100 quilômetros por hora. Uma rodovia extensa, dessas duplicadas, num enorme trecho sem curvas. O que pode acontecer num trecho desses, aparentemente tranqüilo? Tinha placas de sinalização, acostamento largo, faixas bem pintadas e asfalto perfeito, novinho em folha.

Mas havia uma mãe à beira da pista, pegada na mão do filho. Os carros passavam em alta velocidade e ela só esperava o melhor instante para atravessar. E lá vinha o meu carro na BR livre, a 100 quilômetros por hora. Ela atravessou rapidamente, puxando o filho com força. Assisti, em pleno movimento na pista, todo o seu rápido trajeto.

A experiência de um condutor, num instante desses, geralmente aponta o cálculo exato de tempo para a passagem, e determina o que ele deve fazer. Então eu vi que daria tempo, não era preciso acionar o freio. A mulher passou no prazo programado pela intuição, chegando em tempo hábil no canteiro central.

Mas eis que veio a inesperada fatalidade. O menino, de dez ou doze anos de idade, usava um boné vermelho que lhe voou da cabeça justo no instante em que chegou ao canteiro. O vento trouxe o boné para o meio da pista. Um menino, nessas horas, só pensa no seu boné, como se fosse aquela máxima fortuna que não pode perder. E não sei onde teve força para largar-se da mãe, que terminava de arrastá-lo através do pulso.

Eu vejo rapidamente um boné voando, e um menino voltando para resgatá-lo no meio da pista. O turbilhão das imagens se confunde com o grito desesperado da mãe, olhando para trás com sua palavra de insulto:

- Desgraçado!

A mãe, a própria mãe, chamou o filho de desgraçado. E desgraçado não chegou a ser, graças a Deus, mas foi a palavra que também me veio ao pensamento. Não lembro do instante em que apertei o freio, mas recordo um tremor na batata da perna e o pé enterrado ao fundo do pedal, apertando-o fixamente, mesmo com o carro já parado, sem nem me dar conta disso. E ainda tinha nos ouvidos o ronco dos pneus, e dois ou três carros buzinando atrás, um século depois de tudo.

O mundo então clareou e na pista em frente já não havia boné, nem menino e nem mãe. Mas além das buzinas, e ruídos dos autos que passavam ao lado, voltei a escutar os gritos da mulher no centro do canteiro:

- Doido! Doido! Você quer morrer, seu doido?

Quando olhei para o meio, ela batia no garoto. E tome tapas nos braços, nádegas e pernas. O menino chorava escandalosamente e ela não parava de gritar insultos. Estranha atitude o dessa mãe: o medo de perder um filho e, depois do alívio, vem uma ação de vingança e raiva. Eu já tinha voltado a ser um homem normal e então consegui dizer, gritando do volante:

- Tá bom com isso, senhora. Agradeça a Deus.

Ela então me fuzilou com os olhos e devolveu:

- Tá bom nada. Quando chegar em casa ele vai levar uma surra do pai, que é para aprender.

Tudo bem, eu já não tinha nada com isso. Outro carro buzinou atrás e decidi partir, saindo lentamente. Fiquei olhando através do retrovisor, e vi quando a mãe arrebatou o boné que ele ainda prendia nos dedos.

- Não vai levar essa merda não, que é para aprender!

Foi a última coisa que escutei dela. Atirou o boné para o meio da pista e o menino abriu o berreiro.

tarcisiopereira@bol.com.br
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