A pedidos, prossigo com a série que destaca cenas antológicas
em filmes clássicos. Em artigos anteriores tratei de "Verão
de 42" e "A balada do soldado".
Agora me reporto a esse delicioso "Férias de amor" ("Picnic",
Joshua Logan, 1955), que tantos fãs tem, inclusive eu mesmo.
Na verdade, o destaque não é só meu: a cena que ressalto em "Férias de amor" é uma das favoritas da crítica internacional, que a inclui em todas as antologias cinematográficas do século, o que não impede de a revisitarmos, com a mesma admiração de sempre. Afinal de contas, toda cinefilia, como brincadeira de criança, é mesmo repetitiva.
Na cena em questão, William Holden e Kim Novak dançam às margens do rio, embalados por duas coisas: a belíssima música de George Dunning e uma irresistível atração física que lhes sai pelos poros. Mas, antes de chegar à cena, preciso repassar o enredo do filme, pelo menos em suas linhas gerais.
Em Nickerson, essa pequena cidade do Kansas, comemora-se o Dia do Trabalho com uma grande festa que toma o dia inteiro e envolve toda a população do lugar. De corridas de saco a shows musicais, a festa tem de tudo, mas o coroamento é a eleição da Rainha do Neewollah, palavra que, invertendo Helloween, os cidadãos locais criaram para conceituar a alegria de viver.
Este ano, desfilando em seu trono aquático rio afora, a rainha eleita foi Madge, o que foi justo, pois ela é a moça mais bonita da cidade; não é rica, mas, em compensação, namora Alan Benson, o rapaz mais próspero do condado, herdeiro da fábrica de trigo, o único item industrial das redondezas.
Dito assim, tudo parece maravilhoso. Seria se Madge porventura estivesse mais segura de seus sentimentos. Para saber-se que não estava bastou pouco; bastou aparecer esse forasteiro, de costas nuas, queimando lixo no quintal da vizinha. Ex-colega de faculdade de Alan, Hal Carter tinha vindo a Nickerson, na carona de um trem, à procura de uma colocação qualquer. O que conseguiu foi criar o caos onde antes havia paz, uma paz conveniente a todos.
Foi depois da coroação de Madge que a coisa aconteceu, e para acontecer, não foi preciso mais que uma música.
A orquestra começou a tocar "Moonglow" e Madge, livre de seus apetrechos de rainha, não resistiu: batendo uma mão contra a outra, contorcendo o corpo com extrema sensualidade, foi descendo os batentes, dançando em direção a Hal que, enfeitiçado, também dançava. Os dois se abraçaram e, aí, ninguém pôde fazer mais nada, a não ser olhar e admirar esse par sensual que deslizava macio na pista, à luz das lanternas que se refletiam nas águas do rio. Era o casal mais improvável (para não dizer: o mais perigoso!) de Nickerson: o pobretão sem futuro e a noiva do ricaço, porém, a essa altura dos acontecimentos, - dava para perceber - não havia mais retorno: o caos estava irreversivelmente criado, esse caos ao mesmo tempo terrível e maravilhoso, que vinha para destruir a paz tumular de antes.
Toda vez que revejo "Férias de amor" fico pensando em quantas mocinhas e rapazinhos que fugiram de casa nos inocentes anos cinqüenta, não o fizeram inspirados em Madge e Hal. Lembram? Algum tempo após a dança que instaurou o caos em Nickerson, ele tomava o trem para Tulsa, e ela, em detrimento da mãe e de todos, pegava um ônibus que ia em seu encalço, como nos mostrava a tomada final, uma elevada panorâmica em plongée, fazendo trem e ônibus se cruzarem no horizonte.
Hoje o filme parece datado, mas, em sua época, perfilou-se entre aqueles que detonavam os estabelecidos valores familiares de sensatez e segurança, e proclamavam o sonho selvagem e romântico de todos os apaixonados. Os casamentos "fugidos" supostamente não davam certo, mas, que importava? Valia a ousadia de dizer não àquela velha opinião formada sobre tudo.
O original do filme era uma peça homônima do grande dramaturgo
americano William Inge, premiada com o Pulitzer Prize, e que Joshua Logan
dirigiu na Broadway durante anos, até os estúdios da Colúmbia
terem a idéia de filmá-la. Em comecinho de carreira, Kim Novak,
ainda não tinha o destaque de estrela, e William Holden - 37 anos na
ocasião - era coroa demais para o papel, mas, quem se incomodava com
isso?