Jornal O Norte

João Pessoa, Quinta-Feira, 28 de Agosto de 2008

Dom Aldo Di Cillo Pagotto


Festa das Neves: avaliação

Minha sugestão é transferir a tal festa profana para um espaço específico ou praça apropriada para abrigar parques do gênero

Alguns jornalistas me perguntaram: e aí, a festa das Neves? Aqui vai minha opinião. A cidade de João Pessoa tornou-se uma metrópole. Há tempo já não oferece mais espaço para determinadas manifestações festeiras, do gênero 'parque de diversões'. Minha sugestão é transferir a tal festa profana para um espaço específico ou praça apropriada para abrigar parques desse gênero. Transferir para a Lagoa ou adjacências da S. Pedro Gonçalves, nem pensar, pois o problema seria o mesmo ou pior. Em cidades grandes é preciso pensar na destinação de um espaço denominado 'play center', onde são comportáveis brinquedos gigantes, até tipo montanha russa ou barcaças de botar a adrenalina a mil.

Imaginem esses brinquedos gigantes arruinando as construções e calçadas do centro histórico. Mais. As barracas instaladas, ao que tudo indica, não recebem a devida inspeção da vigilância sanitária, nem dos órgãos públicos que se destinam à analise das condições de funcionamento, além da falta de higiene dos alimentos ali oferecidos. Só passando por ali de dia e dando uma espiadinha. Do jeito como são preparados, haja fígado e estômago. E as bebidas alcoólicas, então? Para que cachaçada, se a intenção da tal festa profana seria agregar a família em um ambiente propício, sobretudo para crianças? Ademais, apesar de uns banheirinhos químicos, instalados com muito mau gosto na Praça Dom Adauto, parece que o pessoal tem prazer em urinar pelos cantos, descomplexados. Nem se fale em sentimento de respeito e caridade pelo próximo. Fedentina mesmo.

Ora, o trânsito no centro histórico se torna caótico, influenciando engarrafamentos, com perda de tempo considerável. O espaço público se torna privatizado, com pouco aproveitamento para os moradores e comerciantes que são numerosos nas contigüidades do centro e do Roger. Ficamos ilhados pela poluição sonora, que sem dó nem piedade, arrebenta com os nervos de qualquer cristão. Apesar do fato de diminuírem alguns brinquedos gigantes, o acúmulo de inconveniências reproduz insatisfações. Os moradores e trabalhadores não lucram praticamente nada.

Sobre o aproveitamento religioso da festa das Neves, nada a ver. Aqueles que vêm para a novena da Padroeira estão motivados pela busca da Palavra de Deus, de um conforto espiritual. É exatamente o oposto à agitação e poluição sonora. Boa parte de famílias atraídas para a Catedral são pessoas idosas e tradicionalmente afeitas ao convívio fraternal e familiar. Muitos jovens acompanham seus avós, um fato relevante!

Há dois meses vigora a "lei seca", de N. 11.705, alterando o CTB, regulamentando o uso de bebidas alcoólicas. Os resultados logram êxito, diminuindo em até 30% as tragédias com acidentes graves, envolvendo motoristas alcoolizados. Não somente esse sucesso, mas orientando positivamente sobre o uso moderado de bebidas estimulantes. De nossa parte, nas festas de padroeiros, seguidas de convivência familiar, não há por que utilizar bebidas alcoólicas!

Com a franqueza do sentimento, aqui vai a minha solidariedade junto às autoridades, cuja atitude louvável está conseguindo conter abusos que terminam em violência e desgraças. Segue o meu repúdio aos que insistem em desmoralizar o clima de respeito alcançado. Não aceitamos destarte, que se insista em misturar álcool com festa religiosa. O espaço público, - o entorno do centro histórico - deve ser preservado! O espaço das festas religiosas foram invadidos por barraqueiros e parqueiros. Nossa sugestão é que os poderes públicos não permitam a privatização desses espaços, hoje tumultuados pela imposição de expedientes. Há práticas que caducam pela inconveniência, abuso e danos ao patrimônio de inestimável valor histórico.

Pergunta final: o governo municipal lucra financeiramente alguma coisinha com a tal festa profana? Em caso de algum lucro, ao menos se destinasse uma percentagem para obras sociais. Para a igreja não fica nada, só mesmo a inconveniência de tolerar algo que muitos acham ultrapassado.

Dom Aldo Pagotto, arcebispo da Paraíba
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