Jornal O Norte

João Pessoa, Quinta-Feira, 28 de Agosto de 2008

Ademilson José


Coisas de Matheus

Exímio no contrabaixo, nosso mais novo escritor é de uma criatividade em tom maior

Anteontem logo cedo, umas 6 horas da manhã, eu estava na TV Câmara passando a vista nos jornais e, quando cheguei aqui no Caderno Show, levei um susto danado. Um susto bom, claro, mas um susto danado.

Foi quando dei de cara com uma matéria falando de sertão e de cinema, chamando a gente para, no começo da noite, se dirigir ao Casarão 34, para o lançamento de um livro intitulado "O Sertão é Coisa de Cinema", de autoria do professor Matheus Andrade.

Oxênte, e Matheus escreveu livro? E mais assim com fumos de Glauber Rocha misturando cinema com sertão? Perguntei a me mesmo e voltei à leitura constatando que era aquilo mesmo.

Passei o dia esperando a noite e, claro, remoendo umas coisas mais ou menos assim: Ora, é certo que Matheus é bom como professor na UFPB e, há muito mais tempo, como contrabaixista em qualquer palco e em qualquer lugar. Mas essa agora de livro me pegou no contra pé ou no contratempo, somente pra dizer melhor.

Bom: Fazer o quê? Se o jornal está dizendo, então deve ser verdade mesmo. E logo O NORTE que, no slogan e própria tradição tem mesmo esse negócio de "Você lê você acredita" e, ultimamente, de "100 Anos de Verdade".

Ninguém perde por esperar e, como disse, fiquei aguardando a noite chegar. Até porque, além de precisar tirar a prova dos noves fora com essa história de livro de Matheus, percebi nas páginas do mesmo jornal que tinha outro motivo para ir ao Casarão.

É que, no mesmo caderno de cultura, mais três ou quatro pessoas também estavam anunciando lançamentos de livros, algumas delas até mais conhecidas nesse mundo da literatura do que Matheus. E aí me bateu um medo danado de acabar ficando pouca gente para prestigiar o meu amigo Matheus.

Eu tenho de ir lá; quero ver esse livro e tenho que ajudar a fazer número nesse evento. Adiantei umas coisas, cuidei de ir logo adiando outras e fui, ao longo do dia, preparando o espírito para a tertúlia.

Ainda durante o dia, confesso, já fui ficando assim meio orgulhoso de ter mais um amigo adentrando no mundo da Literatura. Já fui imaginando que, com esse livro, ele pode estar começando a fazer o caminho da imortalidade numa dessas academias, seja a da aldeia, seja a nacional.

Quem sabe? Castelinho, o nosso imortal Carlos Castelo Branco, só escreveu um livro e chegou lá. Se bem que cada coluna do Castelo valia muito mais de que a maioria dos volumosos livros que já vimos ser lançados nesses últimos anos em nosso país.

E, além disso, o que me colocava em permanente reflexão naquela quinta-feira era o fato de nosso contrabaixista predileto ter encontrado tempo para, além do que já faz no instrumento e na UFPB, ainda fazer um livro que certamente não será o único.

Tudo isso ficou assim me ocupando de vez em quando durante o dia. Eis, porém, que, à boquinha da noite, acabei entendendo demais. Ora, se quando a gente está tocando em alguma coisa, uma Bossa Nova, por exemplo, em algum lugar, Matheus sempre nos surpreende com um novo solo ou um novo arranjo, por que não um livro (?)

Exímio no contrabaixo, nosso mais novo escritor é de uma criatividade em tom maior. Por isso, é claro, não deve ter sofrido nessa nova empreitada não. Além do mais, já era de se desconfiar porque nesses últimos tempos ele andava muito calado e só podia estar armando alguma coisa mesmo.

No mais, meus amigos, o fato é que me preocupei demais. No Casarão deu gente - não precisei fazer número - e o livro é mesmo legal. E em algumas páginas que já li, vi que tem tudo a ver com o tema que, há alguns anos na UFPB, era apenas uma dissertação a mais.

O que, na hora da notícia, eu não administrei bem foi a surpresa. Surpresa igual àquela que tive quando assisti ao documentário sobre a líder sindical Margarida Maria Alves que Matheus também já fez.

É interessante: Assim como no contrabaixo, Matheus parece que gosta de viver sempre surpreendendo a gente. Ele guarda sempre uma nota, um acorde, uma sétima para uma nova arte.

Coisas de Matheus...!

ademilsonjosé@jornalonorte.com.br
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