Jornal O Norte

João Pessoa, Quarta-Feira, 19 de Novembro de 2008

W. J. Solha


Médicos

Essa história me veio à baila ao ver o Doutor Sebastião chegar agora à minha casa, com um convite para o lançamento, no dia 29, às 20 horas, no auditório do CRM-PB, de seu livro "Mensagens - Poemas de Amor e Paz"

Certa vez levei meu filho Dmitri, então com onze, doze anos, a um pediatra, por causa de uma papeira. O homem exigiu alguns exames de sangue e, com eles na mão, me deu a notícia terrível:

- O garoto está com pancreatite, e isso, na idade dele, é fatal.

Sem coragem de repassar a notícia à minha mulher, transferi-me para o hospital com o menino, como se o acompanhasse para o patíbulo. Aí, em cima de queda, coice: havia uma epidemia de meningite em João Pessoa e o mesmo médico mandou que se fizesse coleta de líquido céfalo-raquidiano de Dmitri, através de punção lombar. Quando meteram a agulha na coluna de meu filho, o grito foi tão terrível, que me perguntei "Pra quê, se ele está pra morrer de pancreatite?" Mas c´est la vie. A coisa não era de minha alçada. Aí, dois ou três dias depois, a mesma equipe chegou para repetir a sessão de tortura e, sem que eu pudesse evitá-la, disse ao filhote:

- Olhe, a partir do momento da picada, vou começar a fazer uma contagem bem ligeira. O tanto que você agüentar sem berro, eu lhe dou de histórias em quadrinhos.

Quando a agulha entrou, eu me danei a metralhar os números, Dmitri ganhou uma pilha de gibis - creio que dezenove - e foi sua salvação. À noite, ele lia uma das sagas de Ken Parker, deitado, quando, encostado no batente da porta do quarto, vi aproximar-se o plantonista - um estudante de medicina de que me maldigo por não ter recolhido o nome -, e me perguntou, puxando conversa:

- O que o menino tem?
- Pancreatite.
- Pancreatite?!
- É. Acusada pela apresentação de excesso de amilase no sangue.

Baixei a voz:

- O médico me disse que ele está condenado...

O rapaz cortou um riso pasmo ao meio:

- Mas... ele está lendo gibi!...
- E o que é que tem?
- Posso examiná-lo?
- Claro.

Vi as clássicas apalpações no ventre do paciente, "Dói?", "Não", "Dói?", "Não", "Dói?"

- Olha, - ouvi em seguida - pancreatite provoca inchamento do pâncreas, mas não vi isso, nele. E o guri gritaria de dor se eu lhe apertasse a região do órgão. Daí, que lhe digo o seguinte: ele vai morrer é se continuar aí, tomando antibióticos. sem comer.
- E o excesso de amilase?
- Provocado pela caxumba.
- Não!
- Sim!

Fui ao diretor do hospital. O homem me disse que, por ética profissional, não poderia tomar partido. Fiquei chocado:

- O senhor deveria ter ética é com meu filho! Vou agora mesmo procurar outro médico que resolva isso!

Mas qual, numa noite de domingo? Fui à casa do Doutor Sebastião Aires, da Agência 1817 do Banco do Brasil, onde eu trabalhava. Ele estava com a família no terraço, quando lhe contei o caso. Ele disse:

- O estudante está certo. O exame clínico é soberano. Peça para o hospital suspender o antibiótico. Se houver recusa, exija uma junta médica. Eu me ofereço para fazer parte dela.

Evidentemente, o diretor do hospital ligara ao dito pediatra, logo que eu saíra de sua sala, pois quando voltei ao quarto, não vi mais a agulha na veia de Dmitri, e havia uma enfermeira dando purê de batata para ele.

Bem, essa história me veio à baila ao ver o Doutor Sebastião chegar agora à minha casa, com um convite para o lançamento, no dia 29, às 20 horas, no auditório do CRM PB, de seu livro "Mensagens - Poemas de Amor e Paz", publicado pela editora Idéia. Claro que o recebi com o imenso respeito que lhe dedico. Por essa sua atenção, anos atrás, como também pela sua singela e solidária poesia médica, tão didática quanto "As Geórgicas" do romano Virgílio, ou "Os Trabalho e os Dias", do grego Hesíodo. Também pela prática igualmente descomplicada e eficiente de sua profissão, que sempre me fez tanto bem e à minha família. Também por sua perene serenidade no amor ao próximo, que me faz pensar em São Francisco, um poeta tão católico quanto ele.

Na verdade, considero o Dr. Sebastião um santo. Entre outras coisas, por um fato que tenho até como dizer o ano em que se deu: 1982, pois eu fazia cálculos para uma operação de grande porte com uma usina de açúcar e álcool, no Banco do Brasil, quando o telefone tocou e era Fernando Teixeira me pedindo uma adaptação do romance "Fogo Morto" para teatro, numa montagem que ele pretendia estrear... na inauguração do Espaço Cultural José Lins do Rego. De meu birô vi, lá em baixo - através da vidraça da agência - o acampamento dos camponeses de Camocim na Praça João Pessoa, e pensei que Vitorino Carneiro da Cunha teria pano pras mangas ali, no meio do povo que lutava contra o latifúndio... que eu, naquele exato momento, ajudava - incongruentemente - a financiar. Pois bem: ao sair do expediente, em seguida, dei com um de nossos gerentes dando uma bronca no Doutor Sebastião. A cena me pareceu tão estapafúrdia que parei para assisti-la. O motivo? Nosso médico inventara de - em pleno horário de trabalho no BB - socorrer crianças, filhos de agricultores, que tinham passado mal na praça! Minha pressão subiu e eu subi de tamanco na cara do administrador:

- Como é que o senhor, que foi vítima da ditadura militar, tem o desplante de dar um esporro num homem como o Dr. Sebastião, e mais: porque ele acudiu aquelas criaturas?! Em que diabo de cidadão a repressão o tornou?!

Aqui fica minha homenagem ao amigo. Ts. Pena que fiquei sem saber o nome daquele bendito estudante de medicina!

W. J. Solha, Escritor e Artista Plástico

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