Jornal O Norte

João Pessoa, Quarta-Feira, 19 de Novembro de 2008

Ricardo Anísio


Esperança negra

Eleição de Barack Obama, show de Stanley Jordan em João Pessoa...Os ares parecem mudar e espero que não seja uma chuva de verão

A eleição do mulato (isso mesmo, filho de preto com branco, é mulato, não é negro, pelo menos para os livros nos quais estudei) Barack Obama para presidente dos Estados Unidos para mim tem um significado muito mais humanitário do que político. Mesmo que seu governo não mude a economia no trato dos ianques com outras nações, ainda assim, para mim já terá valido.

Terá valido pela memória de Martin Luther King, Prêmio Nobel da Paz assassinado em 1964 pouco depois de receber a comenda. Terá valido por Rubin Carter, o boxeador negro acusado injustamente por assassinato e que foi tema do filme "Hurricane" e da canção homônima de Bob Dylan. Terá valido pelos povos negros de todos os continentes, mais principalmente os d'África. Terá valido pelos iraquianos e pelos angolanos. Terá valido por Valdemar Bastos, espécie de "Geraldo Vandré negro angolano".

Mas terá valido ainda pelos japoneses mutilados em corpo e alma pela covarde bomba atômica. Terá valido pelos artistas negros que foram boicotados para que brancos menos talentosos se entronassem. A vitória é do mundo. E a vitória é, especialmente, de um músico negro americano que se apresenta em João Pessoa na próxima quinta-feira: o virtuose da guitarra Stanley Jordan.

Jordan participou do evento "Jazz for Obama" no qual muitos músicos deram seu irrestrito apoio ao agora presidente eleito dos Estados Unidos. Pois bem, mas do que acertar na economia, espero de Barack que ele acerte na humanização do país que é pródigo em fazer guerras, boicotes e invasões. O bloqueio econômico proposto contra Cuba é um crime cujas proporções somente os séculos hão de relatar com clareza.

Obama deve isso também a Nelson Mandela, sul-africano Prêmio Nobel da Paz em 1993. Deve re-alinhar as questões humanitárias e políticas, para que os seres humanos não se confundam com soldadinhos de chumbo trucidados em guerras como as que George W Bush deflagrou. Dizem, não sei se é verdade, que Bush, quando o furacão Catrina se aproximava de New Orleans teria dado ordens para o socorro não se apressar porque por lá, a população era predominantemente de negros. O jazz atravessou com tantas mortes.

O recital do guitarrista Stanley Jordan depois de amanhã no Teatro Paulo Pontes se amplia em importância. Ele chega a João Pessoa depois de ter emprestado sua genialidade à campanha de Barack Obama, e saber a importância de um negro chegar pela primeira vez ao poder no "país da guerra" e "da ditadura econômica". Portanto, proponho que cheguemos ao teatro para entrar no clima da celebração, musical e humanitária, deixando a política sim em segundo plano.

Os votos de Barack Obama foram votos de quem abomina a guerra e o racismo. Não foram apenas votos de quem temia a falência econômica dos United States of America. Nada disso. Desde a década de 1960 que cantores pacifistas duelavam contra o 'jeito americano de ser', exemplo do Festival de Woodstock e do Concerto Para Bangladesh. Joan Baez, Bob Dylan, Jimi Hendrix, Joe Cocker, George Harrison...Todos queriam a paz e um país sem diferenças raciais.

Boa parte do que há de ruim no mundo moderno foi engendrado pelos Estados Unidos. A raiz é funda tanto quanto a cicatriz. Por isso eu vejo a esperança social me alegrar mais do que o venha a níveis econômicos. Vamos ao Paulo Pontes celebrar com Stanley e saudar Obama através de um dos homens de seu time. O time da mudança. Quando vibrei com a vitória de Lula para presidente do Brasil, vibrei menos por fatos políticos e muito mais por ver um nordestino pobre e sofrido atingir o topo.

Claro, se Barack Obama acertar a mão nos escorregadios caminhos políticos, melhor ainda. Porque isso também pode afetar ainda mais os desvalidos. Mas, francamente, se ele banir o racismo e conter o vampiro americano em sua sede de sangue, estaremos vencendo uma etapa do jogo. Já vencemos. Vamos sim ao recital de Stanley Jordan, que é um grande músico do jazz mundial, e é um eleitor de Obama que deve saber melhor do que ninguém sobre o que tentei alardear nestas mal-traçadas.

O mundo espera o fim dos preconceitos!

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