É o sujeito mesquinho, pão-duro, sovina, harpagão - lembrando o personagem central de "O Avarento", de Molière, tão bem interpretado pelo saudoso Paulo Autran. Enfim, a desprezível criatura que apenas existe, não vive, você me entende. Uma espécie de Tio Patinhas mergulhado em milhões de moedas, triste exposição de usura que na história em quadrinhos pode até ser engraçada, mas é repulsivo exemplo de absoluta insensibilidade social.
E por que esses tristes indivíduos são chamados de unha-de-fome? Não é claro o berço da expressão, embora existam várias locuções de sentido depreciativo alusivas à unha como mostrar as unhas, quando revela aspectos desagradáveis de personalidade, ou meter a unha, cobrar preço exorbitante.
Historicamente, a expressão sugere outra imagem negativa: a dos cristãos em relação aos judeus, que conseguiam obter rendimentos dos bens que acumulavam. Pode-se, ainda, inferir que, como a unha ou as unhas simbolizam as garras de alguns animais, aqueles que se apegam ao dinheiro ou aos bens materiais e não gastam nem para comer sejam conhecidos como unhas-de-fome. Piores que os bichos porque esses, pelo menos, saciam o apetite.
A propósito de unha- de- fome, nunca é demais recordar esta
antiga verdade: caixão não tem gaveta . . .
LICEU - Estabelecimento onde é ministrado o ensino de segundo grau
e/ou o profissionalizante. Também pode ser a agremiação
cultural com fins didáticos. Na Grécia, era no bosque Lykeios,
consagrado a Apolo, famoso por sua destreza como matador de lobos - Lykoi
é lobo em grego - que Aristóteles transmitia ensinamentos a
seus discípulos. Daí, ensina o amigo leitor Roldão Simas
Filho, derivou o vocábulo latino lyceum como lugar de ensino. Aliás,
nome que Cícero adotou no século 1 a.C. para sua quinta, onde
lecionava. Pena que, entre nós, a educação universalizada
e de qualidade continue a ser a vergonha nacional que tanto nos humilha no
contexto das nações minimamente civilizadas . . .
CAMEMBERT - Esse delicioso queijo tem berço e história. Há
mais de dois séculos, a vida na pequena cidade de Camembert, na região
francesa da Normandia, gira em torno de seu famoso produto homônimo.
Tudo começou quando, certo dia, a família de Marie Harel deu
abrigo a um padre que estava sendo perseguido. O religioso vinha da região
de Brie e, como forma de agradecimento aos anfitriões pela acolhida
e proteção, transmitiu-lhes seu conhecimento sobre o fabrico
de queijos. O camembert fez parte da lição: queijo feito com
leite de vaca, de forma redonda e pulverizado com penicillium candidum, que
lhe dá aparência aveludada do mofo, de puríssimo branco.
Em 1863 Victor Paynel, filho Marie Harel, casualmente encontrou Napoleão
III e lhe ofereceu o produto fabricado por sua família. O imperador
provou e gostou, tanto que fez uma encomenda para entrega em palácio.
Foi a consagração da receita. Em 1880 houve novo impulso, com
a adoção da caixinha redonda de madeira como embalagem. A Primeira
Guerra Mundial também ajudou a popularizá-lo, pois o camembert
fazia parte da alimentação diária dos soldados franceses.
Até hoje valoriza o paladar de qualquer bródio que se preze.
Já houve até quem, com irreverência, dissesse que seu
sabor lembra o cheiro dos pés de Deus . . .
***
O leitor cearense Jorge Menezes, ator e professor, traz contribuição adicional ao berço da palavra cariri, aqui mencionada quando comentei a canção popular "Último Pau-de-Arara", de Venâncio, Corumbá e José Guimarães.
Na verdade, a região ganhou o nome de Cariri por causa do extenso vale ali habitado antes pelos índios Cariri, nome que designa tanto a tribo que vivia na região sul do Ceará quanto a língua que eles falavam.
Seja como for, lembremos o tocante trecho da música, bela afirmação de amor ao torrão natal: "Só deixo o meu Cariri/ no último pau-de-arara" . . .