Jornal O Norte

João Pessoa, Quarta-Feira, 19 de Novembro de 2008

João Batista de Brito


Woody Strode

Décimo quarto de uma série sobre coadjuvantes no cinema, o artigo relembra ator negro americano

Nesta época atual, de Whoopi Goldberg, Denzel Washington e Spike Lee, é difícil imaginar - ao menos para as platéias mais jovens - que tenha havido tantas restrições à presença de negros no cinema americano. Do elenco à direção, em todos os setores da atividade cinematográfica, hoje se encontram profissionais negros trabalhando em Hollywood, com a mesma facilidade dos brancos.

E, contudo, a situação era bem diferente na primeira metade do século vinte. Só para lembrar um detalhe, no código de produção que a própria Hollywood criou para si (o chamado código Hays de Censura) e que vingou de 1934 a 1964, havia, entre as terminantes proibições um item estrategicamente denominado de "miscigenação", o que significava que: não só não podia haver casos de amor inter-raciais, mas também que pessoas de cor não podiam ter relevo nos roteiros a serem aprovados. Se os personagens não podiam, muito menos os atores.

Qual era o fã de cinema dos anos 30/40/50 que seria capaz de dizer o nome de um ator negro? Todo mundo chorou com o trágico fim da mãe negra em "Imitação da vida", mas, e a atriz?

No terreno da interpretação, quem abriu a primeira porta para os "de cor" foi Sidney Poitier, historicamente, o primeiro ator negro a alcançar o estatuto de galã, cometendo a proeza de conquistar uma moça branca em "Adivinhe quem vem para jantar" (1966). Mas Poitier não foi o único a abrir portas, e dedico esta matéria a um ator negro que mesmo nunca tendo passado do papel de coadjuvante, ajudou a preparar o caminho para os Morgan Freeman de hoje em dia.

Woody Strode (1914-1994) nasceu em Los Angeles e se formou pela UCLA, universidade em que se destacou como atleta. Nos anos trinta já era famoso nessa área, e a exposição fotográfica para as Olimpíadas de Berlim, já continha foto sua. Com 1,93m de altura, corpo atlético e excelente desempenho em campo, Strode projetou-se como jogador de futebol americano e, em 1946, foi um dos primeiros afro-americanos a entrar para a "National Football League".

Foi nesse tempo e por causa dessa fama, que começou a ser requisitado para pequenos papéis em Hollywood, muitos dos quais sem crédito. Ao longo dos anos cinqüenta, esteve em vários filmes, em muitos deles usando ainda o seu nome de batismo Woodrow Strode, como na superprodução de Cecil B. DeMille, "Os dez mandamentos", onde desempenhou um rei etíope. Outros filmes desse período foram: "Androcles e o leão", "Demetrius e os gladiadores", "O filho de Simbad", "Tarzan e a tribo Nagasu", "Lafite, o corsário", "Os bravos morrem de pé".

Foi o cineasta John Ford quem, no final dos anos cinqüenta, lhe deu honroso destaque ao colocá-lo como semi-protagonista no ousado "Audazes e malditos" ("Sergeant Rutledge"), filme que, de forma avessa, enfrentava o tópico da "miscigenação" do Código Hays. Nesse mesmo ano de 1960, Strode recebeu indicação ao prêmio Golden Globe pela sua atuação, ao lado de Kirk Douglas, no épico "Spartacus" de Stanley Kubrick.

O destaque em "Audazes" e a indicação ao Golden Globe lhe deram enorme visibilidade e Strode estaria em importantes películas ao longo dos anos sessenta, das quais cito: "Os profissionais" (Richard Brooks, 1966), "Genghis Khan" (Henry Levin, 1966) e "Era uma vez no Oeste" (Sérgio Leone, 1968), além, claro dos outros filmes que fez com Ford, de quem virou amigo íntimo: "Terra bruta" (1961), "O homem que matou o facínora" (1962) e "Sete mulheres" (1966).

Nas décadas seguintes Strode não pararia de filmar de modo que a sua filmografia completa soma 89 títulos.

Acho que a última vez em que o vi na tela foi em "Cotton Club" (1984), se não contar sua rápida, e derradeira, aparição em "Rápida e mortal" (1995), porém, a minha lembrança mais querida de Strode continua sendo a do humilde Pompey, o empregado e amigo do rancheiro Tom Doniphon, aquele cujo corpo ele vela agora, muitos anos depois de os dois, juntos, terem atirado no facínora Liberty Valence, salvando da morte o advogado Ramson Stoddard, e, pior, encaminhando-o aos braços da suave e amada Halley.

Nem precisaria dizer, mas digo: Woody Strode é um dos meus coadjuvantes favoritos.

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