Nos anos que antecederam sua morte, o profeta Dom Helder Câmara imaginava o novo século sem fome. Idéia também partilhada e que teve maior propagação por Betinho, igualmente sensibilizado com a situação dos sobreviventes das mazelas e da mesquinhez.
Dom Marcelo Carvalheira foi outro profeta que esteve entre nós e sensibilizado com a situação dos pobres habitantes de lugares inóspitos, disse que a fome era coisa feia.
Realmente, dá uma tristeza danada olhar um mundão de terra boa para se produzir alimentos e verificar multidão de famílias passando fome.
Dados da FAO indicam a existência de 52,4 milhões de pessoas subnutridas na América Latina, nove milhões dos quais são crianças com até cinco anos de idade.
A cada cinco segundos uma criança menor de dez anos morre de fome ou por suas seqüelas imediatas. No ano de 2007 mais de seis milhões de crianças morrem nessa situação.
Outro dado constrangedor: a cada quatro minutos, alguém perde a vista devido à falta de vitamina A.
A FAO garante que existem 854 milhões de seres humanos gravemente subnutridos, mutilados pela fome permanente. São pessoas humanas submetidas ao massacre cotidiano da fome.
Entendemos que o modelo de desenvolvimento rural centrado no agronegócio colocado em pratica nos últimos tempos, que olha para os grandes empreendimentos, provoca exclusão social e compromete a segurança alimentar.
As mudanças no campo, decorrentes de fortes investimentos políticos e econômicos deveriam hegemonizar o agronegócio, periodizar a produção alimentar, grande gargalo no caminho da inclusão social, para uma humanidade nutrida. Evitaria que o saco continue vazio, visto que saco seco não fica em pé.
Esse problema exige o engajamento de todos, principalmente dos ricos, na gestação de nova sociedade que contemple setores como educação, saúde, reforma agrária, política agrícola, distribuição de rendas, moradia.
Precisa-se criar consciência para não se contentar com as esmolas do quase nada!
Não se pode aceitar panacéia na luta contra a fome. A fome e a desnutrição são as principais causas que cobram solução urgente. No Brasil se procura jogar para debaixo do tapete esse e ofertam migalhas que enganam o estômago.
Como proclamou Neruda, tiram tudo de nós. Quase tudo, porque fica a Palavra! Não tenhamos medo de mostrar nem de cobrar políticas públicas em excesso para que todos tenham uma vida, pelo menos, digna de um ser humano.