Jornal O Norte

João Pessoa, Quarta-Feira, 19 de Novembro de 2008

Especial


Em busca da tarifa de energia mais barata

MARCELO SILVEIRA DA ROCHA Presidente da Energisa revela quais investimentos estão sendo feitos para melhorar o serviço prestado aos consumidores paraibanos

Um dos desafios a que se impôs o mineiro Marcelo Silveira da Rocha, que há poucos meses assumiu a presidência da Energisa, foi reduzir o preço da tarifa de energia elétrica. Para isso, usará armas que são conhecidas por consumidores e gestores, mas que, às vezes, são postas de lado ou esquecidas no dia-a-dia de uma grande empresa: o diálogo, a motivação e a perseguição sem tréguas da eficiência e da eficácia. Engenheiro Agrônomo de formação, Marcelo Rocha traz para a Energisa 42 anos de experiência no setor de distribuição de energia e já começa a superar problemas que se arrastavam há anos como, por exemplo, a pendência de um acordo com os eletricitários, com 18 anos sem avanço nas negociações. Nesta entrevista a Luiz Carlos de Sousa, diretor de Jornalismo dos Diários Associados na Paraíba, Marcelo Rocha explica a mudança do nome de Saelpa e Celb para Energisa, conta como reduziu em 50% o número de acidentes de trabalho na empresa e pede desculpas aos paraibanos que entenderam mal a frase "é melhor energia cara do que escuridão barata", dita durante a polêmica sobre o aumento de 15% nas tarifas de energia elétrica no Estado. "A frase foi técnica e ganhou conotação política", disse. "Não iria desrespeitar a sociedade com deboche nem grosseria, especialmente numa cidade que escolhi para morar", enfatizou. Fez ainda uma revelação sobre os projetos de investimentos da empresa: R$ 350 milhões para o biênio 2008/2010.

-Quem é Marcelo Rocha?

- Sou engenheiro agrônomo. Comecei a trabalhar no setor elétrico em 1967, na Companhia Força e Luz Cataguazes Leopoldina, hoje Energisa Minas Gerais. Nasci na Zona da Mata de Minas Gerais, a região mais próxima do Rio de Janeiro.

-Como foi o início da carreira?

- Comecei a trabalhar fazendo eletrificação rural, dentro da formação de engenheiro agrônomo. Depois, fui para o comercial, quando organizei o primeiro departamento de consumidores da empresa; em seguida, fui para a área administrativa. Com a profissionalização da diretoria da empresa, fui o primeiro diretor administrativo-financeiro do grupo.

- São mais de 40 anos envolvido com eletricidade?

- Em 1º de janeiro de 2009, completo 42 anos de trabalho no mesmo grupo, onde comecei com 26 anos.

- Que desafios trouxeram o senhor à Paraíba?

- Estava no Rio, quando recebi o convite para presidir a Energipe (Empresa de Energia de Sergipe, hoje Energisa Sergipe), primeira empresa privatizada comprada pelo grupo Cataguazes Leopoldina. Fui com o desafio de mudar culturalmente uma empresa.

- Qual era a principal mudança cultural a ser feita?

- Pegar uma empresa estatal, que havia sido privatizada no seu controle acionário, e privatizá-la na sua gestão. Foi um trabalho que levou dez anos, mas muito gratificante. A Energisa Sergipe é hoje uma empresa modelo, pela sua gestão, pela qualidade de seu pessoal, pela formação que demos aos quadros da empresa.

- O senhor já esteve na Paraíba antes, comandando a então Saelpa, logo após a privatização?

- Fui presidente da Saelpa durante quatro meses. A idéia era que eu presidisse a Saelpa e a Energipe ao mesmo tempo, mas era impossível. Eu não tinha terminado o trabalho lá e havia um desafio muito grande aqui.

- Apesar de toda a modernidade na gestão?

- Naquela época ainda não era tão moderno assim. Hoje temos vídeo-conferência, as comunicações melhoraram bastante. Em compensação pioraram as comunicações aéreas.

- Mas o senhor se referiu ao problema cultural...

- É que a empresa em Sergipe tinha três anos de privatizada, precisava de muita eficiência e eu tinha um compromisso, o trabalho estava no meio e eu me sentiria um derrotado se não alcançasse os objetivos no prazo estabelecido por mim, que era de cinco anos.

- E o desafio aqui?

- Era muito grande. Não dava para dividir a Saelpa com outro tipo de preocupação. Então, optei por ficar lá. Só para dar um exemplo do que conseguimos, hoje a Energisa Sergipe está com zero de inadimplência com os poderes públicos. Aqui caminhamos para isso.

-Esse é o maior desafio que o senhor terá na Paraíba, a negociação com devedores públicos?

- Quando terminei esse trabalho lá, me convidaram no fim do ano passado para assumir a Energisa na Paraíba. Eu aceitei, porque percebi que pela experiência que tinha, poderia agregar mais valor aqui, aplicando aqui o trabalho que tinha idealizado em Sergipe.

- O senhor falou que o prazo lá foi de cinco anos. Já estabeleceu um para a Paraíba?

- Na faixa de três a cinco anos. A empresa será outra.

- Qual a prioridade?

- Pautamos nosso trabalho na qualificação profissional. Isso passa por muitas ações.

- Quais, por exemplo?

- Instalamos uma galeria de artes na empresa para que nossos funcionários possam estimular a imaginação, instigar a criatividade. Ainda em novembro, vamos inaugurar uma biblioteca para os funcionários. Não será um acervo com livros técnicos. Será literatura, história, geografia, artes. O objetivo é proporcionar outras informações. Também vamos proporcionar uma ocupação espacial melhor, com o aproveitamento de áreas, concentrando mais os funcionários, produzindo melhor comunicação e melhor relacionamento.

- Na área motivacional, quais as iniciativas que a empresa está tomando junto aos funcionários?

- Estamos promovendo uma maior aproximação com os funcionários. Os admitidos, por exemplo, têm uma oportunidade de participar de uma reunião com a diretoria no mês seguinte. Falamos sobre tudo, da história profissional, sobre gostos pessoais. Eu, por exemplo, falo que torço pelo Botafogo no Rio e pelo Cruzeiro, em Minas. Da mesma forma que falo de minha vida, pergunto sobre a deles. Ao final da reunião, somos conhecidos, próximos. Isso tudo faz parte da motivação da equipe no sentido de se capacitar e produzir. O cara não pode estar num lugar só por causa do salário.

-Na área externa, qual a meta a ser alcançada?

- Uma maior aproximação da empresa com a comunidade. Quando falo empresa é no sentido geral. É treinar os nossos colaboradores, que estão em contato direto com o público, no caso dos leituristas, o atendente de uma agência, do “Call Center”m no sentido de tratar bem o consumidor, de atender melhor, de ter clareza no entendimento. Queremos que o consumidor não seja visto como consumidor, mas como cliente, uma pessoa que procura a empresa porque tem uma necessidade. Ele tem que ser bem atendido. Até mesmo o eletricista que vai fazer um corte tem que conversar com o consumidor antes e até dar uma nova oportunidade para pagamento da conta, ou negociar para evitar o corte, porque o corte é caro também. Não nos interessa o “cortar”. Interessa-nos receber pelo serviço prestado de levar energia à casa do consumidor.

- Para um técnico, o senhor acredita muito na conversa?

- O diálogo é fundamental.

- A empresa não tinha esse tipo de postura nem interna nem externamente...

- Por isso nós estamos aí. Nesse estímulo ao relacionamento, temos ainda outro tipo que é a reunião com os acidentados. Numa sala, juntamos acidentados com quem estava com ele na hora do acidente, o chefe imediato, o chefe do departamento, o pessoal da Cipa, o pessoal da área de segurança, Recursos Humanos e os diretores. Pode ser apenas um acidentado. Vamos ouvir a história.

-Há alguma história interessante dessas reuniões que o senhor possa contar?

- Havia muito acidente de percurso com os colaboradores torcendo o tornozelo. Nessas reuniões, nós percebemos que o calçado que eles usavam era inadequados. Eles usavam um tênis abaulado e, como andavam muito, torciam com facilidade o tornozelo. Consultamos os Correios sobre os calçados que os carteiros usavam para entregar correspondência. Eram diferentes. Os carteiros usavam um sapato que tinham uma espécie de prancha, o que proporcionava mais apóio ao pé. Passamos a utilizar o mesmo tipo de calçado.

-Depois da instituição dessas conversas, o índice de acidentes de trabalho caiu?

-Os acidentes da Energisa caíram 50% em decorrência de uma maior dinamização do Serviço de Segurança, que se colocou efetivamente em campo, próximo às operações da empresa. O pessoal saiu dos escritórios e a direção da empresa foi clara, definindo e divulgando sua política de segurança, e firme nas suas atitudes, exigindo posturas seguras e propiciando treinamento adequado aos colaboradores das diversas áreas, especialmente daquelas com mais acidentes.

-Como anda a pendência entre a Saelpa e o Sindicato dos Eletricitários?

- Entre as novas práticas e medidas para aproximação e diálogo com a comunidade de relacionamento da Energisa, o Sindicato merece uma atenção especial, em sendo a entidade de classe que representa significativa parcela dos nossos colaboradores. Daí, a importância de termos eventuais pendências resolvidas, que é o caso referente a uma demanda que já dura 18 anos, portanto anterior à privatização da Saelpa, de então.

- O acordo já foi assinado?

- As tratativas foram concluídas e as providências finais estão em curso, após o que teremos os valores apurados e a competente homologação na Justiça. Então, poderemos dar como encerrado esse desgastante capítulo da história de empresa. Essas coisas se resolvem com uma concreta disposição de diálogo, em que as partes colocam suas posições com honestidade e objetividade, princípios fundamentais hoje nas empresas.

- E a troca do nome de Saelpa para Energisa?

- Esse é outro processo. É um processo do grupo, no sentido de dar uniformidade e visibilidade melhores do que é o grupo. Hoje, nós estamos no Rio, onde temos a Energisa Nova Friburgo; na Zona da Mata de Minas, com a Energisa Minas Gerais; em Sergipe e aqui na Paraíba com duas Energisa, a Paraíba e a Borborema. Todo o universo de relacionamento da empresa passa a ter uma visibilidade melhor. Ao mesmo tempo, você dá ao funcionário uma dimensão maior do grupo onde ele trabalha. E são cerca de 4 mil funcionários, sendo aproximadamente 50% na Paraíba. São 2.300 colaboradores. Além de ser criar um padrão que expressa modernidade, de imagem de comunicação. Daí surgiu a marca única para todo o grupo.

- O relacionamento comercial com prefeituras do interior ainda é problema para a Energisa?

- Desde a privatização, melhorou muito o relacionamento da empresa com as prefeituras. O que temos são alguns casos isolados, que estão sendo resolvidos. Vamos continuar a negociação, e vamos enfatizar o trabalho no sentido de nos aproximar mais dos prefeitos.

- Quantas prefeituras estão inadimplentes hoje?

- Não tenho esse número agora, mas garanto que não é significativo.

- Como está o combate ao roubo de energia?

- Faz parte do nosso trabalho receber por aquilo que entregamos. Um consumidor que faz um gato no seu medidor tem que ser combatido pela empresa. Isso a gente leva até o registro policial.

-Quais são os índices de perdas por essa causa?

- Já foram de 30%. Hoje, são de 18%. Muitas pessoas que adotavam esses procedimentos deixaram de fazê-lo. Hoje colocamos a medição eletrônica, onde a fraude é praticamente impossível. E tem gente reclamando porque não tem mais a facilidade para fraudar.

- Que outro tipo de fraude é cometido?

A ligação clandestina. Tem até no Centro da cidade. Há pessoas que vão ao poste e colocam dois fios, correndo todos os riscos e colocando em risco os demais cidadãos, porque no momento em que ele faz uma ligação clandestina, desequilibra a rede.

- A Energisa tem algum programa especial de combate ao desvio de energia para a periferia?

- Temos um programa que doa geladeiras, por exemplo. Às vezes, o consumidor tem uma geladeira que ganhou de segunda mão ou comprou já usada, que é totalmente ineficiente. É melhor dar uma nova.

- Como o consumidor tem acesso ao programa?

- A empresa identifica as áreas com problemas, que ela chama de projeto comunidade. A gente vai à comunidade, faz um dia de trabalho, leva recreação para as crianças, atualizada dados dos consumidores e faz palestras orientando sobre uso da energia.

- A polêmica envolvendo a Energisa por causa do reajuste de tarifa já foi superada?

- Já foi superada. Houve a autorização de reajustes até maiores para outras empresas, como em Roraima, que foi de 25%. O nosso reajuste foi de 15% e isso não quer dizer que a nossa tarifa seja a mais alta do Nordeste. Em dois anos, nosso aumento foi de 12%. Tivemos até redução da tarifa no ano passado e no começo desse ano.

-Política e juridicamente a polêmica também foi resolvida?

- Deram entrada com ações na Justiça, mas nenhuma conseguiu liminar. E houve o entendimento, tanto da Câmara como da Assembléia, que o assunto é da esfera federal. A legislação de energia elétrica e a regulação estão na esfera federal.

- E a frase "é melhor energia cara do que a escuridão barata" que gerou tanta polêmica?

- É de efeito, mas o fundamento foi técnico. O problema é o seguinte: se nós não tivéssemos feito os investimentos que fizemos, se não tivéssemos melhorado o atendimento ao consumidor, com uma energia em maior quantidade e de melhor qualidade, você teria uma tarifa mais barata. Mas teria também mais interrupções. Mas se não fizéssemos o que foi feito, teríamos mais interrupções, mais apagões. Então é melhor uma energia mais cara com quantidade e qualidade do que a escuridão. Esse foi o sentido. Foi uma frase tremendamente sintética, extremamente técnica.

- Mas ganhou uma grande conotação política.

- É verdade. Ganhou conotação política dentro de um espaço político. Eu lamento. É difícil você explicar tudo isso, mas ficou a imagem de que a frase foi irreverente, o que não foi minha intenção. Não quis debochar nem caricaturar. Não poderia fazer isso de forma nenhuma, aos 67 anos e mudando para uma cidade que me recebeu muito bem. Não quis ser desrespeitoso. Mesmo porque estou morando aqui e pretendo ficar aqui.

- Caminhamos para um apagão, diante dessas dificuldades cada vez maiores de geração e distribuição de energia?

- Não sou especialista em geração de energia, mas em distribuição. Mas eu vejo da seguinte forma: você tem dois componentes muito importantes: um é a chuva, porque nossa matriz é basicamente hidroelétrica. O comportamento da chuva pesa fundamentalmente nesse processo. O segundo é a demanda, que no Brasil tem crescido muito pouco. E a crise mundial também deve diminuir a demanda. Houve determinado momento em 2007 em que se temeu um novo apagão, mas houve uma recuperação dos reservatórios. Houve mais investimentos em geração, mas que vai demorar uns quatro anos para entrar no sistema.

- O senhor identifica algum risco de um novo apagão?

- Não sei. Depende muito disso que estamos falando: chuva e demanda. Agora, acredito que o Brasil precisa de mais algumas centrais nucleares, como as que temos em Angra dos Reis. O Brasil não pode ficar mais na dependência que tem hoje da energia hidroelétrica, porque nossos rios imensos, nas regiões mais povoadas, já estão com a capacidade de gerar energia toda utilizada. O que pode ser aproveitado está na Amazônia que tem um custo muito alto para transmitir, para não falar dos problemas ambientais.

- Como o senhor analisa essa visão futurística de que todos seremos geradores de energia, por causa da eficiência dos motores?

-Acredito que novas formas de geração de energia e de aproveitamento e de racionalização do uso de energia vão surgir. Não tenha dúvida disso. A dificuldade gera a criatividade do homem. Como diz um poeta português: "sempre que um homem sonha o mundo pula e avança".

- Voltando à Energisa, qual é a prioridade hoje?

- São muitos os pontos. Por exemplo, o programa de investimentos no biênio 2008/2010 será de R$ 350 milhões, nele incluído o programa "Luz para Todos". Manter esse investimento é uma prioridade. O programa de combate a perdas também tem que ser mantido e cada vez mais investimentos cientificamente para identificar os desvios. A formação da mão-de-obra, a aproximação com a sociedade também são importantes.

- Acaba sendo um conjunto de prioridades...

- É o investimento, é o controle. Pode ficar certo de que estamos trabalhando para construir uma empresa moderna, atendendo cada vez melhor seus clientes e procurando uma maior eficiência operacional para que tenhamos uma tarifa mais adequada. Acredito que possamos colocar a tarifa aqui da Paraíba, não digo a mais baixa do Nordeste, mas entre as mais baixas da região, a partir de um trabalho mais eficaz, mais eficiente e mais moderno.

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