Especial
Em busca da tarifa de energia mais barata
MARCELO SILVEIRA DA ROCHA Presidente da Energisa revela quais investimentos
estão sendo feitos para melhorar o serviço prestado aos consumidores
paraibanos
Um dos desafios a que se impôs o mineiro Marcelo Silveira da Rocha,
que há poucos meses assumiu a presidência da Energisa, foi reduzir
o preço da tarifa de energia elétrica. Para isso, usará
armas que são conhecidas por consumidores e gestores, mas que, às
vezes, são postas de lado ou esquecidas no dia-a-dia de uma grande
empresa: o diálogo, a motivação e a perseguição
sem tréguas da eficiência e da eficácia. Engenheiro Agrônomo
de formação, Marcelo Rocha traz para a Energisa 42 anos de experiência
no setor de distribuição de energia e já começa
a superar problemas que se arrastavam há anos como, por exemplo, a
pendência de um acordo com os eletricitários, com 18 anos sem
avanço nas negociações. Nesta entrevista a Luiz Carlos
de Sousa, diretor de Jornalismo dos Diários Associados na Paraíba,
Marcelo Rocha explica a mudança do nome de Saelpa e Celb para Energisa,
conta como reduziu em 50% o número de acidentes de trabalho na empresa
e pede desculpas aos paraibanos que entenderam mal a frase "é
melhor energia cara do que escuridão barata", dita durante a polêmica
sobre o aumento de 15% nas tarifas de energia elétrica no Estado. "A
frase foi técnica e ganhou conotação política",
disse. "Não iria desrespeitar a sociedade com deboche nem grosseria,
especialmente numa cidade que escolhi para morar", enfatizou. Fez ainda
uma revelação sobre os projetos de investimentos da empresa:
R$ 350 milhões para o biênio 2008/2010.
-Quem é Marcelo Rocha?
- Sou engenheiro agrônomo. Comecei a trabalhar no setor elétrico
em 1967, na Companhia Força e Luz Cataguazes Leopoldina, hoje Energisa
Minas Gerais. Nasci na Zona da Mata de Minas Gerais, a região mais
próxima do Rio de Janeiro.
-Como foi o início da carreira?
- Comecei a trabalhar fazendo eletrificação rural, dentro
da formação de engenheiro agrônomo. Depois, fui para o
comercial, quando organizei o primeiro departamento de consumidores da empresa;
em seguida, fui para a área administrativa. Com a profissionalização
da diretoria da empresa, fui o primeiro diretor administrativo-financeiro
do grupo.
- São mais de 40 anos envolvido com eletricidade?
- Em 1º de janeiro de 2009, completo 42 anos de trabalho no mesmo
grupo, onde comecei com 26 anos.
- Que desafios trouxeram o senhor à Paraíba?
- Estava no Rio, quando recebi o convite para presidir a Energipe (Empresa
de Energia de Sergipe, hoje Energisa Sergipe), primeira empresa privatizada
comprada pelo grupo Cataguazes Leopoldina. Fui com o desafio de mudar culturalmente
uma empresa.
- Qual era a principal mudança cultural a ser feita?
- Pegar uma empresa estatal, que havia sido privatizada no seu controle
acionário, e privatizá-la na sua gestão. Foi um trabalho
que levou dez anos, mas muito gratificante. A Energisa Sergipe é hoje
uma empresa modelo, pela sua gestão, pela qualidade de seu pessoal,
pela formação que demos aos quadros da empresa.
- O senhor já esteve na Paraíba antes, comandando a então
Saelpa, logo após a privatização?
- Fui presidente da Saelpa durante quatro meses. A idéia era que
eu presidisse a Saelpa e a Energipe ao mesmo tempo, mas era impossível.
Eu não tinha terminado o trabalho lá e havia um desafio muito
grande aqui.
- Apesar de toda a modernidade na gestão?
- Naquela época ainda não era tão moderno assim. Hoje
temos vídeo-conferência, as comunicações melhoraram
bastante. Em compensação pioraram as comunicações
aéreas.
- Mas o senhor se referiu ao problema cultural...
- É que a empresa em Sergipe tinha três anos de privatizada,
precisava de muita eficiência e eu tinha um compromisso, o trabalho
estava no meio e eu me sentiria um derrotado se não alcançasse
os objetivos no prazo estabelecido por mim, que era de cinco anos.
- E o desafio aqui?
- Era muito grande. Não dava para dividir a Saelpa com outro tipo
de preocupação. Então, optei por ficar lá. Só
para dar um exemplo do que conseguimos, hoje a Energisa Sergipe está
com zero de inadimplência com os poderes públicos. Aqui caminhamos
para isso.
-Esse é o maior desafio que o senhor terá na Paraíba,
a negociação com devedores públicos?
- Quando terminei esse trabalho lá, me convidaram no fim do ano
passado para assumir a Energisa na Paraíba. Eu aceitei, porque percebi
que pela experiência que tinha, poderia agregar mais valor aqui, aplicando
aqui o trabalho que tinha idealizado em Sergipe.
- O senhor falou que o prazo lá foi de cinco anos. Já estabeleceu
um para a Paraíba?
- Na faixa de três a cinco anos. A empresa será outra.
- Qual a prioridade?
- Pautamos nosso trabalho na qualificação profissional. Isso
passa por muitas ações.
- Quais, por exemplo?
- Instalamos uma galeria de artes na empresa para que nossos funcionários
possam estimular a imaginação, instigar a criatividade. Ainda
em novembro, vamos inaugurar uma biblioteca para os funcionários. Não
será um acervo com livros técnicos. Será literatura,
história, geografia, artes. O objetivo é proporcionar outras
informações. Também vamos proporcionar uma ocupação
espacial melhor, com o aproveitamento de áreas, concentrando mais os
funcionários, produzindo melhor comunicação e melhor
relacionamento.
- Na área motivacional, quais as iniciativas que a empresa está
tomando junto aos funcionários?
- Estamos promovendo uma maior aproximação com os funcionários.
Os admitidos, por exemplo, têm uma oportunidade de participar de uma
reunião com a diretoria no mês seguinte. Falamos sobre tudo,
da história profissional, sobre gostos pessoais. Eu, por exemplo, falo
que torço pelo Botafogo no Rio e pelo Cruzeiro, em Minas. Da mesma
forma que falo de minha vida, pergunto sobre a deles. Ao final da reunião,
somos conhecidos, próximos. Isso tudo faz parte da motivação
da equipe no sentido de se capacitar e produzir. O cara não pode estar
num lugar só por causa do salário.
-Na área externa, qual a meta a ser alcançada?
- Uma maior aproximação da empresa com a comunidade. Quando
falo empresa é no sentido geral. É treinar os nossos colaboradores,
que estão em contato direto com o público, no caso dos leituristas,
o atendente de uma agência, do “Call Center”m no sentido
de tratar bem o consumidor, de atender melhor, de ter clareza no entendimento.
Queremos que o consumidor não seja visto como consumidor, mas como
cliente, uma pessoa que procura a empresa porque tem uma necessidade. Ele
tem que ser bem atendido. Até mesmo o eletricista que vai fazer um
corte tem que conversar com o consumidor antes e até dar uma nova oportunidade
para pagamento da conta, ou negociar para evitar o corte, porque o corte é
caro também. Não nos interessa o “cortar”. Interessa-nos
receber pelo serviço prestado de levar energia à casa do consumidor.
- Para um técnico, o senhor acredita muito na conversa?
- O diálogo é fundamental.
- A empresa não tinha esse tipo de postura nem interna nem externamente...
- Por isso nós estamos aí. Nesse estímulo ao relacionamento,
temos ainda outro tipo que é a reunião com os acidentados. Numa
sala, juntamos acidentados com quem estava com ele na hora do acidente, o
chefe imediato, o chefe do departamento, o pessoal da Cipa, o pessoal da área
de segurança, Recursos Humanos e os diretores. Pode ser apenas um acidentado.
Vamos ouvir a história.
-Há alguma história interessante dessas reuniões que
o senhor possa contar?
- Havia muito acidente de percurso com os colaboradores torcendo o tornozelo.
Nessas reuniões, nós percebemos que o calçado que eles
usavam era inadequados. Eles usavam um tênis abaulado e, como andavam
muito, torciam com facilidade o tornozelo. Consultamos os Correios sobre os
calçados que os carteiros usavam para entregar correspondência.
Eram diferentes. Os carteiros usavam um sapato que tinham uma espécie
de prancha, o que proporcionava mais apóio ao pé. Passamos a
utilizar o mesmo tipo de calçado.
-Depois da instituição dessas conversas, o índice de
acidentes de trabalho caiu?
-Os acidentes da Energisa caíram 50% em decorrência de uma
maior dinamização do Serviço de Segurança, que
se colocou efetivamente em campo, próximo às operações
da empresa. O pessoal saiu dos escritórios e a direção
da empresa foi clara, definindo e divulgando sua política de segurança,
e firme nas suas atitudes, exigindo posturas seguras e propiciando treinamento
adequado aos colaboradores das diversas áreas, especialmente daquelas
com mais acidentes.
-Como anda a pendência entre a Saelpa e o Sindicato dos Eletricitários?
- Entre as novas práticas e medidas para aproximação
e diálogo com a comunidade de relacionamento da Energisa, o Sindicato
merece uma atenção especial, em sendo a entidade de classe que
representa significativa parcela dos nossos colaboradores. Daí, a importância
de termos eventuais pendências resolvidas, que é o caso referente
a uma demanda que já dura 18 anos, portanto anterior à privatização
da Saelpa, de então.
- O acordo já foi assinado?
- As tratativas foram concluídas e as providências finais
estão em curso, após o que teremos os valores apurados e a competente
homologação na Justiça. Então, poderemos dar como
encerrado esse desgastante capítulo da história de empresa.
Essas coisas se resolvem com uma concreta disposição de diálogo,
em que as partes colocam suas posições com honestidade e objetividade,
princípios fundamentais hoje nas empresas.
- E a troca do nome de Saelpa para Energisa?
- Esse é outro processo. É um processo do grupo, no sentido
de dar uniformidade e visibilidade melhores do que é o grupo. Hoje,
nós estamos no Rio, onde temos a Energisa Nova Friburgo; na Zona da
Mata de Minas, com a Energisa Minas Gerais; em Sergipe e aqui na Paraíba
com duas Energisa, a Paraíba e a Borborema. Todo o universo de relacionamento
da empresa passa a ter uma visibilidade melhor. Ao mesmo tempo, você
dá ao funcionário uma dimensão maior do grupo onde ele
trabalha. E são cerca de 4 mil funcionários, sendo aproximadamente
50% na Paraíba. São 2.300 colaboradores. Além de ser
criar um padrão que expressa modernidade, de imagem de comunicação.
Daí surgiu a marca única para todo o grupo.
- O relacionamento comercial com prefeituras do interior ainda é
problema para a Energisa?
- Desde a privatização, melhorou muito o relacionamento da
empresa com as prefeituras. O que temos são alguns casos isolados,
que estão sendo resolvidos. Vamos continuar a negociação,
e vamos enfatizar o trabalho no sentido de nos aproximar mais dos prefeitos.
- Quantas prefeituras estão inadimplentes hoje?
- Não tenho esse número agora, mas garanto que não
é significativo.
- Como está o combate ao roubo de energia?
- Faz parte do nosso trabalho receber por aquilo que entregamos. Um consumidor
que faz um gato no seu medidor tem que ser combatido pela empresa. Isso a
gente leva até o registro policial.
-Quais são os índices de perdas por essa causa?
- Já foram de 30%. Hoje, são de 18%. Muitas pessoas que adotavam
esses procedimentos deixaram de fazê-lo. Hoje colocamos a medição
eletrônica, onde a fraude é praticamente impossível. E
tem gente reclamando porque não tem mais a facilidade para fraudar.
- Que outro tipo de fraude é cometido?
A ligação clandestina. Tem até no Centro da cidade.
Há pessoas que vão ao poste e colocam dois fios, correndo todos
os riscos e colocando em risco os demais cidadãos, porque no momento
em que ele faz uma ligação clandestina, desequilibra a rede.
- A Energisa tem algum programa especial de combate ao desvio de energia
para a periferia?
- Temos um programa que doa geladeiras, por exemplo. Às vezes, o
consumidor tem uma geladeira que ganhou de segunda mão ou comprou já
usada, que é totalmente ineficiente. É melhor dar uma nova.
- Como o consumidor tem acesso ao programa?
- A empresa identifica as áreas com problemas, que ela chama de
projeto comunidade. A gente vai à comunidade, faz um dia de trabalho,
leva recreação para as crianças, atualizada dados dos
consumidores e faz palestras orientando sobre uso da energia.
- A polêmica envolvendo a Energisa por causa do reajuste de tarifa
já foi superada?
- Já foi superada. Houve a autorização de reajustes
até maiores para outras empresas, como em Roraima, que foi de 25%.
O nosso reajuste foi de 15% e isso não quer dizer que a nossa tarifa
seja a mais alta do Nordeste. Em dois anos, nosso aumento foi de 12%. Tivemos
até redução da tarifa no ano passado e no começo
desse ano.
-Política e juridicamente a polêmica também foi resolvida?
- Deram entrada com ações na Justiça, mas nenhuma
conseguiu liminar. E houve o entendimento, tanto da Câmara como da Assembléia,
que o assunto é da esfera federal. A legislação de energia
elétrica e a regulação estão na esfera federal.
- E a frase "é melhor energia cara do que a escuridão
barata" que gerou tanta polêmica?
- É de efeito, mas o fundamento foi técnico. O problema é
o seguinte: se nós não tivéssemos feito os investimentos
que fizemos, se não tivéssemos melhorado o atendimento ao consumidor,
com uma energia em maior quantidade e de melhor qualidade, você teria
uma tarifa mais barata. Mas teria também mais interrupções.
Mas se não fizéssemos o que foi feito, teríamos mais
interrupções, mais apagões. Então é melhor
uma energia mais cara com quantidade e qualidade do que a escuridão.
Esse foi o sentido. Foi uma frase tremendamente sintética, extremamente
técnica.
- Mas ganhou uma grande conotação política.
- É verdade. Ganhou conotação política dentro
de um espaço político. Eu lamento. É difícil você
explicar tudo isso, mas ficou a imagem de que a frase foi irreverente, o que
não foi minha intenção. Não quis debochar nem
caricaturar. Não poderia fazer isso de forma nenhuma, aos 67 anos e
mudando para uma cidade que me recebeu muito bem. Não quis ser desrespeitoso.
Mesmo porque estou morando aqui e pretendo ficar aqui.
- Caminhamos para um apagão, diante dessas dificuldades cada vez
maiores de geração e distribuição de energia?
- Não sou especialista em geração de energia, mas
em distribuição. Mas eu vejo da seguinte forma: você tem
dois componentes muito importantes: um é a chuva, porque nossa matriz
é basicamente hidroelétrica. O comportamento da chuva pesa fundamentalmente
nesse processo. O segundo é a demanda, que no Brasil tem crescido muito
pouco. E a crise mundial também deve diminuir a demanda. Houve determinado
momento em 2007 em que se temeu um novo apagão, mas houve uma recuperação
dos reservatórios. Houve mais investimentos em geração,
mas que vai demorar uns quatro anos para entrar no sistema.
- O senhor identifica algum risco de um novo apagão?
- Não sei. Depende muito disso que estamos falando: chuva e demanda.
Agora, acredito que o Brasil precisa de mais algumas centrais nucleares, como
as que temos em Angra dos Reis. O Brasil não pode ficar mais na dependência
que tem hoje da energia hidroelétrica, porque nossos rios imensos,
nas regiões mais povoadas, já estão com a capacidade
de gerar energia toda utilizada. O que pode ser aproveitado está na
Amazônia que tem um custo muito alto para transmitir, para não
falar dos problemas ambientais.
- Como o senhor analisa essa visão futurística de que todos
seremos geradores de energia, por causa da eficiência dos motores?
-Acredito que novas formas de geração de energia e de aproveitamento
e de racionalização do uso de energia vão surgir. Não
tenha dúvida disso. A dificuldade gera a criatividade do homem. Como
diz um poeta português: "sempre que um homem sonha o mundo pula
e avança".
- Voltando à Energisa, qual é a prioridade hoje?
- São muitos os pontos. Por exemplo, o programa de investimentos
no biênio 2008/2010 será de R$ 350 milhões, nele incluído
o programa "Luz para Todos". Manter esse investimento é uma
prioridade. O programa de combate a perdas também tem que ser mantido
e cada vez mais investimentos cientificamente para identificar os desvios.
A formação da mão-de-obra, a aproximação
com a sociedade também são importantes.
- Acaba sendo um conjunto de prioridades...
- É o investimento, é o controle. Pode ficar certo de que
estamos trabalhando para construir uma empresa moderna, atendendo cada vez
melhor seus clientes e procurando uma maior eficiência operacional para
que tenhamos uma tarifa mais adequada. Acredito que possamos colocar a tarifa
aqui da Paraíba, não digo a mais baixa do Nordeste, mas entre
as mais baixas da região, a partir de um trabalho mais eficaz, mais
eficiente e mais moderno.
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