Jornal O Norte

João Pessoa, Quarta-Feira, 19 de Novembro de 2008

Emerson Barros


"Caveira, quem foi que te matou? Foi a língua, meu senhor!"

Quem já leu o livro de Provérbios sabe quantas exortações Salomão fez à sabedoria. Nada melhor do que a leitura desse livro para uma época onde a fala é um recurso tão banalizado. Nem sempre temos consciência da grande responsabilidade com o que dizemos.

Creio que muitos prefeririam ficar calados se pudessem refletir na verdade da frase de Abraão Lincoln: "É melhor se calar e deixar que as pessoas pensem que você é um idiota, do quer falar e acabar com a dúvida..."

Aristóteles certamente acharia um absurdo o direito se imiscuir tanto na vida privada, mas isto acabou tendo de acontecer em nossa sociedade, por exemplo, para preservar a liberdade das pessoas e frear declarações e acusações irresponsáveis. Dispositivos penais, contudo, embora necessários, não costumam ser suficientes para impedir que a língua humana destile veneno. Saímos, aqui, da esfera do direito e vamos para a da ética.

A palavra deveria ser uma maçã de ouro numa bandeja de prata. Mas, em geral, ela é tão vulgarizada, tanto na sua expressão oral quanto na escrita, que tem servido muito mais como instrumento de condenação dos outros e de nós mesmos.

Julgar e caluniar os outros é o expediente fácil dos incompetentes e dos invejosos. O conto de La Fontaine, do vaga-lume que desperta ciúme no sapo repelente, simplesmente por brilhar, é o retrato fiel de muitas mentes doentes e obtusas que se comprazem na destruição de qualquer um que seja talentoso. Voltaire disse que os infinitamente pequenos têm um orgulho infinitamente grande.

A fala só deveria ser usada para abençoar os outros, para agradecer e para valorizar e exaltar o que é bom. Quando colocamos amor no que dizemos, tornamo-nos incapazes de usar a língua para atacar, ferir, caluniar, distorcer, confundir. Naturalmente, as pessoas que agem assim acreditam que isso vale a pena. Imaginam que os ganhos imediatos com a infelicidade dos outros, compensam a falta de caráter. Quem sabe da verdade e a falseia, não é apenas um ignorante, é um criminoso. Por outro lado, a "verdade" sem amor e sem caridade, equivale-se à mentira. Muitos se utilizam de fatos sem importância para criar armadilhas e factóides com o intuito de esconder a própria pequenez e incompetência. "Quanto menos os homens pensam, mais eles falam", disse Montesquieu. Quanto menos criativos, inteligentes, capazes, mais utilizam a língua para ferir e prejudicar.

Quem utiliza a fala como instrumento detratação dos outros, adultera a própria fisionomia moral.

Dedicando amor e cuidado às nossas palavras, evitaremos problemas e mal-entendidos. Consagrando amor à nossa fala, numa atitude interior de respeito pelo outro, espalharemos as sementes da paz e da amizade.

Muitas vezes, minimizamos ou racionalizamos o efeito daquilo que dizemos de mal dos outros, simplesmente para nos sentirmos melhores. Esta é uma estratégia que não costuma funcionar para a consciência, que é silenciosa, mas não costuma se calar diante dos testemunhamos que damos.

A língua deve servir para desatar nós em vez de construir forcas. O que dizemos pode resolver problemas, melhorar circunstâncias e aliviar fardos, como pode também arruinar e dizimar.
Quem tem uma arma dentro da própria boca fatalmente será vítima dela, mais cedo ou mais tarde. Será condenado e morto por ela.

Quem usa a palavra para julgar os outros, acabará sendo julgado com rigor muito maior. A língua é o músculo do corpo mais difícil de disciplinar. O melhor exercício para ela é a prudência e a sabedoria.
Quem diz tudo o que pode, sabe ou vê, esbarrará sempre na inconveniência ou na ruína.

Para usar uma imagem de Tiago, o cavalo é freado pela boca e o barco é dirigido por um pequeno timão, que obedece à vontade do piloto.

A língua é uma pequena chispa, mas pode incendiar o bosque inteiro, insiste o apóstolo. Ela pode contaminar mentes, desviar o curso de uma vida.

O que sai da boca não deve servir ao mal. Não deve maldizer, presumir, envenenar.

A boca deve ser uma fonte de água doce e não de água salgada. Deve matar a sede e não quem bebe dela.

É melhor ser rápido no escutar e lento e econômico no falar. Quem faz o contrário, costuma acabar como a caveira do título desta crônica...

emerson@etical.org.br
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