Em 1996, eu estava no Rio de Janeiro durante a inauguração do Centro de Arte Hélio Oiticica e, por telefone, recebi uma missão do artista e então vice-presidente do Conselho de Cultura da Paraíba, Chico Pereira, que me pareceu, no mínimo, instigante: "Vá ao apartamento de Simeão Leal e acompanhe a embalagem das obras e livros que devem ser transferidos para a Paraíba, urgentemente."
Naquele momento eu nem imaginava o que aconteceria naquele enorme apartamento de cobertura em Copacabana. Primeiro, pouco conhecia sobre Simeão Leal. Depois, qual a razão para esta verdadeira "Operação de guerra" ser tão urgente? Até comentei com a museóloga Cristina Negrão e o professor Paulo Sérgio Duarte, no Centro Hélio Oiticica, que me falou horas sobre a importância de Simeão para a cultura brasileira. O porteiro do edifício, um paraibano de Santa Luzia, me levou até o apartamento que já estava quase todo desmontado em caixas de madeira e papelão por uma dessas empresas de transporte de cargas. Observando ainda algumas pesadas esculturas de ferro sendo embaladas percebi semelhanças com a produção de Jackson Ribeiro (depois é que descobri que foram amigos, aluno e professor) e, andando a esmo pelos cômodos da casa, pude dimensionar o que ali, durante anos, transitou de artistas e intelectuais dos mais expressivos de todo o país.
Simeão, que completaria 100 anos neste ano de 2008 (nasceu em Areia, em 13 de novembro), foi o que se pode dizer de um "homem de cultura" com todas as letras. Dirigiu a partir de 1947, o Serviço de Documentação do antigo Ministério da Educação e Saúde, no Rio de Janeiro. Durante sua gestão, que se estendeu por mais de quinze anos, foi responsável por uma revolução no país, quando transformou esse setor na principal editora oficial da cultura nacional publicando centenas de títulos em coleções como os Cadernos de Cultura, Aspectos, Letras e Artes.
Seu gabinete foi neste período, de fato, um Ministério da Cultura, quando ali aportavam diariamente as principais figuras da cultura e das artes brasileiras, e até personalidades internacionais que aqui chegavam. Além de produtor e protetor das artes, Simeão Leal era um amante do livro, principalmente aqueles sobre arte, folclore e estética. Juntou uma das mais interessantes bibliotecas brasileiras no gênero, além de preciosos documentos sobre a cultura brasileira e paraibana por conta da sua atuação quando aqui exerceu algumas funções públicas. Seu desejo era que a Paraíba viesse a ter uma biblioteca como a sua, disponível para pesquisadores e estudantes do seu Estado. Não pôde realizar em vida esse desejo. Mas a viúva, Eloah Drummond Leal, tornou possível este sonho doando ao povo da Paraíba este precioso acervo, que hoje se encontra sob a responsabilidade do IPHAEP e NIDHR/UFPB.
Médico, Secretário de Estado na Paraíba, crítico de arte, diplomata, adido cultural em vários países, jornalista, membro fundador da Associação Brasileira de Críticos de Arte (foi presidente e era, ao falecer, Presidente de Honra), criador da Escola de Comunicação da UFRJ e da ESDI-Escola Superior de Desenho Industrial, no Rio de Janeiro, membro da comissão organizadora da I e II Bienal Internacional de São Paulo, coordenador cultural do Museu de Arte Moderna (MAM Rio), amigo de vários artistas, entre eles Tomás Santa Rosa - aliás, com quem estava na Índia quando do falecimento deste artista paraibano -, são rápidas pinceladas em seu vasto currículo. Mas, o que pouca gente sabe é que Simeão Leal era também artista de mão cheia. Raul Córdula, em texto de 1985, revela: "O que nos enche de agradável surpresa é o fato de Simeão revelar-se agora, em plena maturidade intelectual, artista plástico de linguagem contemporânea; e isto é muito importante porque não se trata de um homem idoso fazendo terapia através da arte, com o olhar no passado a reviver lembranças, mas de um artista com o pensamento no futuro, construindo sua arte avalizada por uma grande experiência de vida."
O crítico Flávio de Aquino, logo após uma exposição de Simeão Leal (ao lado de Sérgio Camargo e Tunga na Galeria Saggitario, na Itália), lhe dedica o artigo "A lógica de um temperamental", em que afirma: "Certa vez, Herbert Read admirou-se com um rabisco que Simeão colocava na sua frente sob o vidro da mesa. De arte ele sabia tudo, mas poucos conheciam seu vício solitário do desenho, colagem e pintura que começou aos poucos, por volta dos anos 1950. Sentado como um Buda, este homem de temperamento exaltado começou a fazer uma arte contemplativa, minuciosamente construída à régua e tira-linhas. As colagens iniciais revelavam um impacto da fantasia solta e mesmo da alucinação. Isto é Simeão. Mas seus desenhos cinéticos e ilusionistas, criando túneis para o infinito e espaços inquietantes, são frutos do matemático poeta."
"Como pioneiro na documentação de nossa cultura, articulador de significativos movimentos de arte, descobridor de talentos, artista ligado a uma inteligência estrutural, Simeão está para ser descoberto pelo Brasil", encerra Raul Córdula. E eu concordo.