Jornal O Norte

João Pessoa, Quarta-Feira, 19 de Novembro de 2008

Dom Aldo Di Cillo Pagotto


Violência doméstica (2)

O que fazer para reverter a situação de crianças que se equiparam a artigos de consumo?

A violência doméstica é um estigma emblemático da sociedade de consumo, em franca decadência. Crianças são “iniciadas” dentro de casa. Supondo-se que os “pais” sejam seus tutores, não passam de aliciadores de menores, e portanto deverão ser responsabilizados como criminosos. Como explicar a prática de aliciamentos, maus-tratos, abusos sexuais, cometidos contra crianças e adolescentes? Ninguém pode se negar a fazer parte da superação desse fenômeno, configurado como gravíssimo desequilíbrio "que acompanha as tendências da moda", típico da sociedade de consumo. Adultos destemperados instalam definitivamente essa prática, fruto do permissivismo atual. Servem-se de crianças e pervertem-nas!

O que fazer para reverter a situação de crianças que se equiparam a artigos de consumo, facilmente manipuláveis como se fossem objetos de desejo? Por vezes os próprios filhos ou enteados são os envolvidos por que menos se podia duvidar... A família, vai sendo descartada como abjeta, instituição de uma sociedade burguesa. Pelos anos '60 ouvia-se semelhante jargão, que servia para todo tipo de contestação, contra tudo e contra todos. Quaisquer pessoas portadoras de valores éticos e morais, bem como quaisquer instituições eram taxadas de "burguesas, de retrógradas ou de alienadas", quando não iam ao encontro das idéias e posturas liberais, impostas ditatorialmente por alguns (chamados) intelectuais orgânicos, achando-se sempre os donos da verdade.

Hoje somos obrigados a conviver com as piores aberrações da violência, onipresente, generalizada. Passou da hora de reagir. Não se pode reagir de forma imediatista, com a emotividade acelerada, sempre má conselheira e péssima advogada das causas perdidas. É preciso recuperar a credibilidade da instituição familiar como formadora de pessoas e promtora do desenvolvimento. O problema da sociedade de consumo é a falta de referenciais de valores transcendentais, que envolvem a prática da fé e do amor efetivo à vida, ou seja, precisamos retomar a missão construtiva da família e da pátria. Nosso desenvolvimento deve possuir metas. Devemos trabalhar com metas e resultados, planejados de modo claro.

A partir do currículo escolar, as crianças e adolescentes devem receber orientações mais seguras sobre comportamento ético e moral, bem como receber orientações sobre organização social e política. Muitos filhos da revolução de '68 podem me taxar de retrógrado e alienado, ou de estar trazendo os instrumentos do tempo da ditadura (outro jargão outrora usado e que volta à carga). O que interessa é orientação para pais e para crianças. Hoje o conceito de família está solto. O que significa formar uma família? É um termo, ou é uma conceituação completamente aberta a todo tipo de ambiguidades. Daí a necessidade de formação para pais e filhos, através de convênios celebrados entre a escola e a família. Formação não se improvisa, asim como busca de soluções para os graves problemas de pedofilia doméstica, não podem ser balão de ensaio de laboratório.

O verdadeiro sentido da vida não pode ser encontrado senão no amor de Deus e do próximo. A fé ocupa primordialmente um papel decisivo na educação de pais e filhos, bem como na formação da índole humanitária das crianças, desde sua tenra idade. Nossa sugestão para a superação da prática do abuso sexual, e com ele, também a questão da exploração sexual infanto-juvenil, é manter um fórum permanente de trocas de experiências, levand oao currículo escolar matérias interessantes de formação, envolvendo de forma vinculante a participação dos pais nas escolas, especilamente nas escolas públicas.

O voluntariado da Pastoral da Criança pode contribuir enormemente com sua experiência jubilar. Além da prática exitosa da erradição da mortalidade infantil e demais práticas saudáveis envolvendo gestantes e mães, nossa Pastoral atravessa por fases de avanço sistemático de articulação de políticas públicas de saúde, educação e geração de coupação e renda. Poderemos voltar ao assunto, aprofundando essas idéias.

Dom Aldo Pagotto, Arcebispo da Paraíba
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