Polícia e bandidos trocaram tiros normalmente, os assaltos aumentaram aqui e alhures, a cesta básica subiu 26%, uma menina de nove anos foi encontrada triturada em Curitiba... mas, no meio desta semana, não deu outra:
As últimas horas das eternas eleições americanas tomaram conta da mídia e, quando anunciaram que as pesquisas de boca de urna davam Obama, ali perto de casa, na Favela Oquei, dezenas de pessoas não agüentaram a emoção e saíram em passeata.
Mas o problema é que, quando as projeções foram sendo confirmadas, a emoção aumentou e pelo menos 10 crianças, 31 mulheres e 40 homens da passeata passaram mal e foi um Deus nos acuda. Pra complicar, diante dos manifestantes, surgiu um inesperado contestador. Policarpo Carteiro era o nome dele.
Ostentando uma bandeira do PSTU e uma farda dos Correios cheia de broches de Guevara, ele já chegou dizendo desaforos. Gritou que a passeata era coisa de alienados e delírio coletivo e que toda àquela palhaçada era provocada pelo excesso de noticia sobre eleição americana em nossa televisão.
Ainda sendo massageada e meio tonta, uma das mulheres que passava mal, Leyde Dayana, ponderou dizendo que Policarpo não podia dizer aquilo, que o noticiário era maravilhoso e que durante todo este ano ela esteve assistindo mais os passos de Obama do que as estupendas novelas das oito e nosso futebol Dungado.
E aí, bastante emocionada, Leyde Dayana acrescentou: "Obama, hoje, Policarpo, é o nosso Lula Mundi...! Como diria Herbert Marcuse, uma espécie de nosso Lula Unidimensional..."
Dedo em riste e de olhos esbugalhados, Policarpo cometeu a besteira de chamá-la de "véia desnaturada e desnacionalizada" e, aí, meus amigos, é que o bicho pegou. Metade da passeata partiu pra cima de Policarpo com uma raiva dos diabos.
O linchamento só não se consumou porque, afetadas emocionalmente com o agravamento da confusão, as pessoas que passavam mal começaram a desmaiar em efeito dominó e boa parte só não morreu ali mesmo porque, muito rápido em assuntos de orelhão, um lavador de carro conseguiu mobilizar 62 viaturas do Samu.
Assim que as viaturas saíram em socorro disparado, os passeateiros retomaram a pancadaria e Policarpo só não ficou todo quebrado porque, mesmo atrasada (estava sem gasolina), chegou uma viatura policial. Dentro dela, claro, três soldados meio bêbados e um cabo bruto e analfabeto de pau e mão.
Linchado e linchadores foram imediatamente revistados, algemados e levados como detidos e, conforme as ordens do cabo, ninguém seria liberado da delegacia até que o Samu não desse notícia sobre o estado de saúde dos hospitalizados.
Na delegacia, o cabo elogiou a posição de Policarpo considerando que também achou o noticiário das eleições americanas exagerado, tanto é assim que, explicou ele, nas últimas semanas em nossa TV, Obama e McCain teriam aparecido bem mais do que a nossa briosa polícia e os bandidos nacionais.
O telefone da delegacia tocou, o cabo atendeu e a tragédia se consumou: O Samu informava que, depois de anunciado o resultado do pleito, a emoção aumentou e o quadro clínico dos socorridos se agravou, e o resultado é que os médicos não puderam fazer nada porque, pelos diagnósticos, todos já eram mesmo "obamistas de morrer".
Um processo imediatamente foi aberto e um laudo de Balhares Pardan dava o dito por não dito e acabada a confusão. Poucas horas depois, no entanto, era pedida a prisão de toda cúpula governamental brasileira, tendo em vista que um novo laudo assinado pelo perito Genifrança Valdo, mudava os rumos da investigação.
É que, segundo esse novo laudo, existia "causa mortis". Havia sido "estadozunite aguda", uma epidemia que se agravou nos anos 50 e que é causada pela picada do vírus collonius ou States-egypte, cujo remédio é o EstadozunidalizaDor.
Tal vírus, completava o laudo do exímio perito, costuma se acumular e se triplicar pela tela e, ao longo dos dias, vai se espalhando pela sala e pelo país, contaminando pessoas que não sabem usar o controle remoto de sua própria TV.