Parafraseando o dístico da bandeira mineira: "libertas quam sera tamen" (liberdade, ainda que tardia) da mesma forma a paz, a todo custo, ou seja, do sacrifício, do empenho pessoal e coletivo na superação da violência. O que dizer sobre o inominável arbítrio dos bombardeios desferidos pelo comando do governo de Israel contra o povo co-irmão, palestino que ocupa a Faixa de Gaza? A amostragem demonstra quão difícil é a superação da violência, que clama aos céus.
Nenhum chefe de Estado conseguiu sensibilizar o governo israelense sobre a possibilidade de um armistício. Por qual razão a desumanidade chega a tal ponto de preferir o ataque como melhor forma de defesa? Jamais entenderemos qual "lógica" sustenta o ódio, "legitimando" uma guerra que tem sua origem na descriminação racial e no preconceito religioso. Incrível é entender como no século XXI ainda se mata por motivos "religiosos", evidentemente ideologizados.
Nesse sentido Bento XVI em sua mensagem de paz (1º de Janeiro pp) ilustra os fenômenos especulativos do mercado mundial, dominado pelos dogmas da política econômica. Doravante é inevitável a mudança de paradigmas, devido à débâcle provocada pelos EUA, cujo efeito negativo se espalha qual epidemia no mundo. A falta de um reajustamento de instituições políticas e econômicas deve fazer frente às necessidades e às emergências dos povos empobrecidos.
Nos últimos decênios, os dados sobre o processo de aceleração do empauperamento dos povos, indicam o alargamento do fosso entre ricos e pobres. A evolução tecnológica traria benefícios que, no entanto, se concentram na faixa superior da produção e da distribuição de oportunidades e renda. A dinâmica dos preços dos produtos industriais cresce mais rapidamente do que os preços dos produtos agrícolas e das matérias primas, em posse dos países mais pobres. Resultado: a maior parte da população dos países mais pobres sofre dupla marginalização, pois não produzem, não têm renda suficiente e seu custo de vida é mais alto.
Uma das estradas mestras para construir a paz é uma globalização que tenha em vista os interesses da grande família humana. Para guiar a globalização é preciso uma forte solidariedade global entre países ricos e países pobres, como também no âmbito interno de cada uma das nações, incluindo ricas. É necessário um código ético comum, cujas normas não tenham apenas um caráter convencional, mas, estejam radicadas na lei natural inscrita pelo Criador na consciência de todo o ser humano (cf. Rm 2, 14-15). Porventura não sente cada um de nós, no íntimo da consciência, o apelo a dar a própria contribuição para o bem comum e a paz social?
A globalização elimina determinadas barreiras e aproxima os povos. A proximidade geográfica e temporal por si mesma, não cria as condições para uma verdadeira comunhão e uma paz autêntica. A marginalização dos pobres da terra encontrará instrumentos válidos para o resgate de sua dignidade na globalização da solidariedade. Cada ser humano se sente pessoalmente atingido pelas injustiças existentes no mundo. As violações dos direitos humanos decorrem das injustiças. A Igreja se oferece para ser sinal e instrumento da íntima união com Deus e da unidade de todo o gênero humano. Deverá, pois, continuar a contribuir para que sejam superadas as injustiças e incompreensões e se chegue a construir um mundo mais pacífico e solidário.
Voltaremos ao assunto, por ocasião da Campanha da Fraternidade do presente ano, que aborda o tema da superação da violência e trata explicitamente sobre "Fraternidade e Segurança pública".